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Revisão da Utilização de Culturas para a Fauna na Gestão de Aves
Cinegéticas
Reino, L. M. *, Borralho, R.
* & Bugalho, J. F. F. * (2000). Revista
de Ciências Agrárias. Vol. XXIII, Nº 3/4: 48-71. * ERENA, Av. Visconde Valmor 11-3º, 1000-289 Lisboa email: lr@erena.pt
A
instalação de culturas para a fauna permite aumentar a capacidade de
suporte do meio para as espécies cinegéticas. Esta é uma das medidas
que mais contribui para uma melhor qualidade do habitat,
afectando positivamente a densidade, a sobrevivência e a reprodução dos
animais silvestres.
A
implementação destas culturas é mais importante nos locais onde se
verifica o abandono da agricultura. Espécies como a perdiz-vermelha ou a codorniz, recorrem às áreas agricultadas na procura de abrigo e
alimento mas, com o abandono das práticas agrícolas, torna-se essencial
a implementação propositada de culturas para a manutenção destas
populações de aves. Sendo estas culturas específicas para os animais
silvestres, surge ainda a oportunidade de se melhorar as suas populações,
relativamente aos locais de agricultura tradicional.
De
uma forma geral, a implementação das culturas para a fauna proporciona:
.
coberto de refúgio e de nidificação
.
melhoria na qualidade e quantidade de alimento, com sementes, vegetação
verde e invertebrados
.
harmonia entre os diferentes usos do solo por forma a satisfazer os
requisitos ecológicos de diferentes espécies
As
culturas devem ser seleccionadas consoante as espécies de animais que se
pretende beneficiar. Neste trabalho deu-se especial ênfase às culturas
para determinados grupos de aves, onde se incluem os patos, as perdizes,
entre outras aves não exploradas cinegeticamente, como os sisões e as
abetardas, mas que também podem beneficiar desta medida de gestão.
O
coberto vegetal é um dos principais factores proporcionados por estas
culturas. Este coberto no solo varia ao longo do espaço e ao longo do
tempo (sazonalmente e mesmo diariamente), e proporciona boas condições
de fuga e refúgio (para protecção dos predadores), de descanso e
dormida, de nidificação, de
protecção contra as intempéries do Inverno e de sombra (para protecção
do calor) para as espécies e ainda boas condições para o tiro.
No
entanto, pode haver cobertos que cumpram melhor algumas das funções
referidas do que outros. Um coberto pode ser excelente para uma
determinada espécie passar o Inverno mas não ser adequado para a
nidificação.
A
falta de sombra pode ser um factor ainda mais negativo do que a falta de
alimento, especialmente no nosso clima, com Verões quentes e secos. É um
problema frequente nas áreas com veados onde a manutenção de um coberto
que lhes proporcione sombra não é vulgar e acabam por perder mais
energia com o calor do que a que ganham com o alimento. O coberto de
sombra, também pode contribuir para a diminuição do número de
perdigotos que morrem por desidratação nos meses mais quentes do Verão.
Para
a maioria das espécies cinegéticas, um coberto que proporciona refúgio
contra as condições meteorológicas adversas e contra os predadores não
deverá ser demasiado alto nem muito denso, de forma a que permita uma
circulação fácil. Mas deverá haver uma intercalação ao longo da área
em altura, densidade e composição de espécies vegetais, de forma a
maximizar a eficácia do coberto em todas as suas funções. As parcelas
de culturas para a fauna deverão também ser adaptadas ao local,
dependendo da área total e da fisionomia do terreno.
Frequentemente,
os cobertos que proporcionam bom refúgio e alimentação não são
adequados para a nidificação. O refúgio e o alimento podem variar mais
no espaço e ao longo do tempo, uma vez que os animais bravios se vão
deslocando para os locais onde esses recursos estão disponíveis. O
coberto de nidificação necessita de ser menos efémero e não pode estar
sujeito a trabalhos agrícolas constantes, porque neste caso, os animais
ficam restritos à área onde nidificam. A nidificação é um factor
essencial para a manutenção das populações de um ano para o outro. A
perdiz-vermelha, por exemplo, nidifica nos locais melhor protegidos dos
predadores, que correspondem aos locais onde a vegetação herbácea é
mais alta e preferencialmente
em áreas com a presença de arbustos. Nos locais adequados para nidificação,
não ocorre geralmente a predação de ninhos.
As
populações de animais bravios são favorecidas pela disponibilidade de
alimento, tanto em qualidade como em quantidade. Obviamente terá de haver
quantidades suficientes de alimento para todos os indivíduos, mas se a
qualidade do alimento for baixa resultam baixas taxas de natalidade,
elevadas taxas de mortalidade, e surgem dificuldades nos movimentos das
espécies migradoras. As culturas proporcionam alimento directamente,
através de partes verdes das plantas, de grãos, de frutos, de raizes e
de sementes, e indirectamente, através de invertebrados que frequentam as
culturas (essenciais na alimentação de juvenis de determinadas aves), e
de plantas infestantes que surgem associadas às culturas.
Na
selecção das culturas deve-se ter em conta o tipo e qualidade da
folhagem (a Perdiz-vermelha, por exemplo, prefere folhas de gramíneas e
leguminosas), o vigor, a resistência, o valor alimentar, a possibilidade
de criação de sebes, o risco de infestação, o custo de instalação e
as espécies de animais a que se destinam. As culturas terão de estar
adaptadas ao clima e ao solo locais.
Um
dos problemas com que os gestores se deparam nas operações de instalação
das culturas para a fauna prende-se com decisão sobre qual a área a
ocupar. Normalmente, aplicam-se em faixas ao longo dos caminhos, no meio
dos montados ou de outros povoamentos florestais, por vezes ocupam os
corta-fogos, etc. Uma das deficiências mais frequentes deve-se ao facto
de se criarem faixas demasiado estreitas e compridas, o que muitas vezes não
é adequado.
Os
critérios para decidir qual a superfície a ocupar pelas culturas são
bastante variáveis. Normalmente é já sugerido que a área a ocupar
pelas culturas pode ir até aos 20% da área total. Alguns critérios de fácil
aplicação podem ser adoptados:
.
dever-se-á, em primeiro lugar, estabelecer as insuficiências dos
recursos alimentares e de abrigo da área e a(s) espécie(s) a beneficiar;
.
devido a questões económicas, a instalação das culturas deve estar
coordenada com outras actividades ligadas ao uso do solo, como sejam
actividades agrícolas e silvícolas;
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as plantas a utilizar deverão estar bem adaptadas às condições
ambientais do local de instalação;
.
deve-se ponderar a possibilidade de utilização de misturas de diferentes
espécies, as quais se poderão revelar mais interessantes do que as
culturas monoespecíficas;
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a repartição das culturas é fundamental e, porventura, mais importante
que a sua área total. Sempre que possível, as culturas para a fauna
devem ser rectangulares ou lineares, de forma a maximizar o efeito de
orla, devendo também ser intercaladas;
.
a largura das parcelas não deve exceder os 100 m para ungulados e os 50 m
para aves e mamíferos de menor porte. Regra geral, quanto menor for a
dimensão da espécie faunística-alvo, mais estreitas devem ser as
parcelas de culturas;
.
a forma como são dispostas no terreno também deve ter em consideração
a densidade e o tamanho médio dos territórios da espécie-alvo.
.
tendo em conta a utilidade que podem ter para determinados grupos, como as
perdizes e os galiformes de uma maneira geral, aconselha-se a utilização
de diferentes culturas, de forma a fornecerem diferentes tipos de recursos
durante o ciclo anual. A cultura de uma única espécie vegetal
dificilmente pode facultar alimento e diferentes tipos de coberto durante
todo o ano;
.
as culturas para a fauna podem ser instaladas de diversas formas,
dependendo da zona e espécie alvo. Destacam-se as seguintes formas ou
meios de instalação: i) manchas: por exemplo, através da constituição
de parcelas, devidamente espaçadas; ii) meios lineares: utilizando-se
para o efeito caminhos, estradas, orlas, etc.;
.
se os coelhos ou outros herbívoros, que não sejam objecto prioritário
de gestão, forem muito abundantes, devem ser eliminadas as culturas mais
apreciadas por eles ou, em alternativa, protegidas as parcelas a instalar.
Quanto
às espécies vegetais a utilizar nas culturas, existe um leque muito
variado de opções. As características
das espécies e as condições necessárias para a sua instalação
podem ser consultadas na Tabela anexa.
Tabela
A CONSERVAÇÃO PELO USO SENSATO
© ERENA 2002
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