|
Aves de Rapina de uma Região
Dominantemente Desarborizada, dos Concelhos de Castro Verde e Mértola.
Abordagem à Estrutura da Comunidade e às suas Relações com o Habitat
Onofre,
N. X. R. S. (1996). Silva Lusitana, nº especial: 65-92. Estação
Florestal Nacional. Deptº de Conservação dos Recursos Naturais. Tapada
da Ajuda, 1300 Lisboa.
As aves de rapina incluem a
maior proporção de espécies ameaçadas quando nos referimos à fauna
portuguesa. Para a maioria destas aves a alteração do habitat é a causa
mais forte do seu declínio, mas para algumas espécies a simples perturbação
e consequente perda de posturas e criações bem como o envenenamento ou
abate de alguns indivíduos ou casais poderão ter um impacte
significativo para o futuro das suas populações no país.
Algumas alterações de habitat são
por vezes favoráveis, mas raramente se verifica esta situação por não
haver tempo de adaptação até ocorrência de perturbações, ou devido
à evolução lenta (caso da expansão e crescimento de floresta) no
sentido de consolidação de condições favoráveis, por exemplo para a
nidificação. A própria biologia destas espécies é responsável pela
lenta expansão das suas populações, mesmo quando encontram condições
favoráveis, pois têm uma baixa produtividade e uma elevada mortalidade
antes de atingirem a maturidade.
Tendo em conta a importância do
estudo de aves como indicador ambiental, realizou-se um ensaio com a
utilização de aves de rapina como bio-indicadores (aproveitando a sua
posição no topo da cadeia alimentar e por ocuparem vastos territórios)
da diversidade de cobertos vegetais e de espécies animais. Desta forma,
um maior número de espécies de aves de rapina numa região corresponderá
a uma maior diversidade do habitat, desde que não esteja associada a uma
elevada fragmentação, imposta pela necessidade de áreas vastas e
remotas. Pretende-se por último utilizar este estudo das relações
destes predadores com o habitat como guia para ordenamento destas áreas.
Assim, em primeiro lugar foi
realizado o recenseamento das aves de rapina nos concelhos de Castro-Verde
e Mértola, numa área com o total de 90 000 ha.
Nestas regiões a espécie melhor
adaptada à paisagem dominante (grandes extensões de pousios, searas de
trigo, cevada, aveia e fenos) e a que existe com maior abundância é a Águia
caçadeira (Circus pygargus), tendo-se estimado a presença de uma
média de 1,3 indivíduos em cada 10 km da região em estudo. Nas áreas
onde a cerealicultura já raramente tem lugar denota-se um decréscimo de
abundância para estas aves. As restantes espécies são bastante menos
abundantes: a Águia d’asa redonda (Buteo buteo) de nidificação
arborícola é escassa e encontra-se muito dispersa na área confinada às
poucas manchas de habitat adequado à nidificação; o Peneireiro das
torres (Falco naumanni), também dependente da extensão agrícola,
é bastante regular na área tendo-se em conta o declínio generalizado
devido a alterações das disponibilidades do habitat para alimentação e
nidificação; o Peneireiro cinzento (Elanus caeruleus) é mais
escasso do que seria de esperar uma vez que o montado de azinho com seara
será uma habitat favorável; a Águia calçada (Hieraaetus pennatus)
que é, das espécies observadas a de características mais florestais,
encontrou-se nestas paisagens com uma densidade superior ao que seria de
esperar, e onde a nidificação terá sido confirmada; a Águia cobreira (Circaetus
gallicus) e o Milhafre preto (Milvus migrans), ambas de
nidificação arborícola, são espécies escassas na área; enquanto o
Peneireiro vulgar (Falco tinnunculus) é bastante frequente com
seria de esperar.
Para as zonas em estudo é notória
a relação da distribuição das espécies com as características do
coberto vegetal, onde as áreas mais arborizadas correspondem à distribuição
das aves de características mais florestais e na razão inversa as
"estepes" cerealíferas correspondem às restantes aves como a
Águia caçadeira. A presença da Águia caçadeira e do Peneireiro das
torres será indicadora da existência de terrenos abertos de
cerealicultura extensiva de sequeiro e de pousio.
As áreas escassamente arborizadas
são relativamente pobres em espécies de aves de rapina, mas as áreas
declivosas podem albergar espécies particularmente raras, tendo sido
nestas condições detectado um adulto de Águia real (Aquila
chrysaetos).
Foram observadas mais quatro espécies,
que apesar de não nidificantes sobrevoam a área: o Gavião (Accipiter
nisus), Falcão peregrino (Falco peregrinus) e os necrófagos
Abutre negro (Aegypius monachus) e Grifo (Gyps fulvus).
No Inverno, a região tem importância
para a permanência de Milhafre real (Milvus milvus),
principalmente junto das lixeiras.
Como local de nidificação nesta
área, a maioria destas espécies optam normalmente pelo topo das
azinheiras. Raramente espécies de característica mais florestais poderão
ter o ninho num eucaliptal, caso da Águia d’asa redonda que apresenta
na área ninhos em azinheiras e ocasionalmente em eucaliptos. Os ninhos do
Peneireiro das torres encontram-se em buracos de construções humanas
abandonadas enquanto a Águia caçadeira faz os seus ninhos no chão, em
searas. As azinheiras de nidificação do Peneireiro cinzento são de
montados com seara no sob-coberto, enquanto que para a Águia d’asa
redonda, Milhafre preto e Águia cobreira o sob-coberto é dominado por
matos ou pousios de vales ou cerros mais declivosos.
Nesta região, a baixa
disponibilidade de habitat para nidificação será o factor mais
limitante para a ocorrência de uma maior densidade de espécies de
rapinas. O alimento, pelo contrário parece ser um factor suficientemente
satisfatório. O pousio é o habitat de caça mais utilizado pelas espécies.
Pelo menos para a Águia caçadeira esta maior utilização pode dever-se
aos pousios serem o habitat mais abundante mas para a maioria das espécies
as áreas limpas ou pousios serão as preferidas para caçar.
Para promover o aumento da
densidade de espécies de aves de rapina, seria de adoptar a conversão de
áreas degradadas em floresta (desde que de revolução longa que não é
o caso de eucaliptais) para criar um habitat mais propício para nidificação.
Esta intervenção não poderá ser solução em locais com solos
acentuadamente degradados. A arborização será negativa para as aves de
rapina adaptadas à extensividade agrícola assim como outras espécies
estepárias como a Abetarda, Sisão, Alcaravão, Cortiçol ou Calhandra.
Pode-se no entanto calcular o adensamento de arborização que cada espécie
tolera. O Peneireiro cinzento tolerará um adensamento dos montados de
20%. As áreas de não ocorrência de espécies estepárias ameaçadas serão
mais merecedoras de florestação. Nas áreas das espécies estepárias a
florestação será condicionada à sua ecologia podendo-se optar pela
arborização de encostas ou leitos dos vales mais encaixados ou pela
instalação de pequenos núcleos de arvoredo nas áreas mais planas.
A CONSERVAÇÃO PELO USO SENSATO
© ERENA 2002
|