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Variação da Densidade de Veados numa Área do Tejo Internacional: Influência do
Habitat, Pastoreio e Caça
Robalo,
P.* & Borralho, R.** (1997). Silva Lusitana 5(2): 225-240. *Estação
Florestal Nacional. Tapada das Necessidades, 1350 Lisboa. **ERENA,
Ordenamento e Gestão de Recursos Naturais. Av. Visconde Valmor, 11-3º
1000-289 Lisboa.
e-mail:
rui.borralho@erena.pt
Assiste-se na área do Tejo
Internacional ao reaparecimento natural do veado desde meados dos anos 80,
proveniente da população espanhola vizinha. Tal reaparecimento é uma
consequência das condições de expansão criadas pela alteração da
paisagem que se fez sentir primeiro em terras espanholas, e depois em
Portugal, consequência do êxodo rural.
É nesta área, agora com
potencial para albergar e para incrementar a caça maior, que o presente
estudo se desenrola com o propósito de avaliar a influência da vegetação
arbórea dominante, do pastoreio de ovinos e caprinos e da caça menor
intensiva, na densidade de veados.
Para tal, distinguiram-se na área
dois tipos de coberto, o montado de azinho e o eucaliptal degradado.
Verificou-se que as zonas de montado eram utilizadas numa primeira parcela
para agro-pecuária, sendo a segunda parcela gerida cinegeticamente. Por
outro lado, no eucaliptal de 11 anos, que apresentava falhas devido a
factores climáticos que permitiam a existência de culturas sob-coberto
ou matos abundantes, distinguiram-se duas parcelas. Numa das parcelas
praticava-se caça menor intensiva e na outra não.
A caracterização da população
revelou a presença de 1024 veados num total de 3200 ha, densidade
bastante superior aos valores encontrados no norte da Europa. Resulta que
a área em questão pode não ter capacidade suficiente para suportar a
população. Não deixando de ser uma densidade relativamente comum para a
Península Ibérica, para se averiguar qual a densidade ideal para a zona
estudada ter-se-ia de analisar o estado físico dos animais e a sua dinâmica
populacional. Esta definição da densidade ideal deve por sua vez ter em
atenção a capacidade de suporte do meio, podendo ser preferível manter
a densidade dos veados inferior a esta capacidade para:
. evitar
um impacte negativo no ambiente onde os animais vivem
. melhorar
a condição física dos animais
. incrementar
a fertilidade das fêmeas
. aumentar
a sobrevivência das crias
. aumentar
o valor do troféu
. aumentar
as taxas de recrutamento
A escassez de alimento, resultante
da densidade populacional elevada, afectará primeiro os machos
(principalmente os mais velhos) por haver quem admita serem mais fracos
competidores por alimento do que as fêmeas, situação que começará por
reflectir-se na diminuição da qualidade do troféu. Uma população bem
gerida pode apresentar machos de 4 anos com troféus de valor semelhante
aos machos de 6 anos de uma população com densidade exagerada para o
alimento disponível. Normalmente o segredo da gestão de veados passa por
manter uma baixa densidade da população, desde que seja mais rentável
ter poucos machos com troféu de elevado valor do que ter muitos machos de
fraco troféu. Tal é o caso quando se prefere a caça de aproximação à
montaria, já que em geral no primeiro caso se dá maior importância ao
valor do troféu e no segundo à quantidade.
De entre os cerca de 1020 veados
estimados em Março de 1996, 450 eram fêmeas, 325 eram machos e os
restantes 275 eram crias. Estes valores permitem indicar a existência de
uma taxa normal de reprodução. Contudo, o número superior de fêmeas
relativamente aos machos pode ter consequências na qualidade dos troféus.
De uma maneira geral será preferível
ter um número idêntico de machos e fêmeas, ou mesmo estar em número
ligeiramente inferior, pois a maior capacidade das fêmeas na competição
pelo alimento desfavorece a nutrição dos machos.
No que diz respeito às várias
parcelas consideradas, os resultados obtidos revelaram heterogeneidade na
influência do habitat, pastoreio e da caça. Estes resultados podem estar
associados à influência do pastoreio na densidade de veados, devido à
perturbação inerente à presença de animais domésticos e à procura do
mesmo alimento, por parte destes animais. Apesar desta situação, a
conjugação entre diferentes herbívoros é possível e poderá ser favorável
para a gestão da vegetação, conseguindo-se bons resultados com a
combinação veado-gado bovino. Assim, na parcela de eucaliptal onde não
se pratica caça menor foram encontrados os valores mais elevados de
densidade de veados, enquanto que na parcela de montado de azinho sujeita
a pastoreio praticamente não há veados. Quando a comparação é
realizada entre os dois tipos de coberto, de uma forma geral o eucaliptal
degradado é seleccionado como o mais adequado. Esta preferência pode
resultar de uma melhor oferta em termos de abrigo e alimento. A conjugação
dos resultados encontrados quer ao nível das parcelas, quer ao nível dos
cobertos permite por sua vez apontar a caça menor intensiva como tendo um
efeito negativo para a presença de veados.
Perante as características
populacionais descritas propõe-se como medida de gestão o fomento da
extracção de fêmeas (juvenis e não lactantes) para favorecer os
machos, com equilíbrio da razão entre os sexos, o que apresenta como
vantagens o aumento do valor do troféu, da saúde da população e da
fertilidade das fêmeas que permanecerem. Por outro lado, o aumento da
diversidade e intercalação dos estratos de vegetação sob o coberto do
montado seria favorável para o aumento da apetência por estas parcelas
menos seleccionadas pelos veados. Também, ao se optar pela combinação
de veados com gado doméstico na parcela sujeita a pastoreio, os animais
mais indicados para coexistir com o veado são os bovinos pois desta forma
a alimentação disponível pode ser aproveitada por todos os animais, já
que a forma de pastar de uns e de outros é mais complementar que
competitiva, o que já não acontece com os ovinos. Esta opção deve-se
ao pastoreio não selectivo dos bovinos que aumenta a diversidade da das
pastagens e promove o crescimento herbáceo através da defecação e
urina com aumento da fertilidade dos solos. Por último, dado o efeito
negativo da caça menor intensiva surge como vantajosa a existência de
uma área vedada a este tipo de caça, que sirva de refúgio a uma parte
significativa da população de veados.
A CONSERVAÇÃO PELO USO SENSATO
© ERENA 2002
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